A tentativa da Âmbar de reabrir rodadas do LRCAP talvez seja a notícia mais relevante do setor elétrico neste momento, não apenas pelo caso em si, mas pelo que ela coloca em discussão: previsibilidade regulatória.
A Âmbar protocolou recurso na ANEEL pedindo anulação das rodadas de 2026 e 2027, alegando que o sistema bloqueou a participação da UTE Santa Cruz em produtos distintos sem aviso prévio. Quando um player que acabou de vencer potência no certame questiona as regras durante o jogo, a discussão deixa de ser sobre quem ganhou ou perdeu e passa a ser sobre confiança no processo e segurança para alocação de capital.
E esse ponto importa ainda mais porque o 2º LRCAP contratou 19 GW e mobilizou R$ 64,5 bilhões em investimentos. Os vencedores ( Eneva, Petrobras, Âmbar, Copel, Axia, SPIC, ENGIE, entre outros) já estão estruturando financiamentos e decisões de investimento com base nesses resultados. Qualquer incerteza regulatória neste momento tem efeito cascata.
Na prática, porém, o LRCAP reforçou algo que já vinha se desenhando: o prêmio está migrando para ativos que resolvem gargalos reais do sistema.
Os próprios ganhadores do leilão ilustram cada frente:
🔥 Ativos Flexíveis com Receita Regulada:
A própria Âmbar é um bom exemplo: comprou a UTE Norte Fluminense às vésperas do certame e reforçou exposição a um ativo térmico com relevância sistêmica. Eneva e Petrobras, por sua vez, também saíram do leilão com contratação relevante de potência e maior previsibilidade de receita regulada de longo prazo. A Petrobras estimou em cerca de R$ 4 bilhões sua receita fixa anual com o resultado, enquanto a Eneva destacou 5,06 GW contratados, expansão de hubs de gás e reforço de previsibilidade de receitas.
🔌 Transmissão como Ativo Estratégico:
A ENGIE , que no LRCAP garantiu a ampliação da UHE Jaguara, investiu R$ 6 bi em 2025 integrando geração e transmissão (3,2 mil km de linhas). A Copel, maior vencedora em hidrelétricas com 1,86 GW (Foz do Areia e Areia), verticaliza na mesma lógica. Com a rede estrangulada, quem controla o fio controla o valor.
⚡ Expansão e Consolidação Estratégica
A SPIC contratou a expansão de São Simão (310 MW, +R$ 1 bi), a Axia investirá R$ 1 bi na ampliação de Luiz Gonzaga — todas hidrelétricas com localização premium. O prêmio foi para quem tem ativo existente, conexão garantida e capacidade de entrega real.
